Reverter cicatrizes oriundas de violência policial em tatuagens é o que se propôs o tatuador Roberto Felizatti. Foi assim que ele criou o “Cicatrizes do Bem”, um projeto inusitado que apoia vítimas através da arte. “Transformar essas marcas em auto estima é o objetivo”, conta ele.

Conheça mais sobre o projeto nessa entrevista exclusiva para a Tattoaria:

TATTOARIA — Como surgiu a ideia do projeto?
RF — A ideia do projeto surgiu quando comecei a observar o quanto essas marcas incomodavam as pessoas que as possuem. É um trauma físico e psicológico causado de maneira proposital pelo sistema. Sempre fui ligado às periferias,eu cresci nas periferias e, observando esses traumas, comecei a tentar imaginar uma forma de tentar ajudar essas pessoas. Todas essas marcas foram feitas de maneiras injustas e covardes pela polícia, agentes penitenciários ou até mesmo brigas entre os detentos do sistema carcerário, incentivadas pelo próprio sistema. Foi daí que surgiu a ideia de transformar essas cicatrizes em algo positivo e bonito; transformar essas marcas em auto estima é o objetivo.

TATTOARIA — Houve preconceito em relação ao intuito do projeto?
RF — Sim, houve muito preconceito. Esse preconceito já é cultural,tanto como o preconceito contra o negro e pobre da periferia. Quando eu tive a ideia do projeto e comecei a divulgar, comecei a perder seguidores nas redes sociais, pessoas consideradas amigas começaram a me questionar sobre a ação e algumas até se afastaram. Mas já era uma consequência esperada, a ignorância prevalece em algumas pessoas, não só no agressor que causa essas marcas, mas também nos que apoiam a atitude da polícia. Seguimos resistentes na luta e não vamos ceder a ignorância mútua desse tipo de gente. Toda ação tem uma reação, eu tenho noção de todas consequências, mas a minha causa é legítima e verdadeira.

TATTOARIA — Já conta com participantes? Ou ainda não foi oficialmente lançado?
RF — Já foi oficialmente lançado sim, já tatuei vítimas desssa opressão e seguirei tatuando enquanto houverem vítimas. Em breve, lanço os vídeos com os depoimentos, as histórias de horror e trauma que essas vítimas passaram.

TATTOARIA — Teve alguma experiência marcante desde que começou o projeto?
RF — Uma que me marcou muito foi a de um jovem de 19 anos que que foi agredido no ponto de ônibus na zona norte de São Paulo. Ele foi enquadrado pela polícia militar paulista e levou um “tapa” no ouvido, perdendo parte da audição do ouvido esquerdo. Esse jovem infelizmente não pude ajudar com a tatuagem, mas creio que, com o crescimento do projeto, num futuro próximo podemos ajudá-lo de alguma maneira. Ameaças da polícia vão continuar, às vezes até aumentar, mas vamos nos manter firmes.

TATTOARIA — E em relação a apoio ao projeto?
RF — É uma produção independente da periferia feita diretamente para a periferia, estamos unidos e nos manteremos unidos. O projeto conta o apoio do rapper ,ativista e escritor Eduardo Taddeo, que também luta contra o preconceito, abuso policial e violência excessiva do sistema.

TATTOARIA — E como uma pessoa pode se inscrever para participar?
RF — Tudo meu é feito de maneira simples e direta, pelos meus contatos nas redes sociais e também pela indicações de amigos que também conhecem vítimas. É tudo de muito fácil acesso. É só vir, contar a sua história que nos já marcamos a tatuagem.

TATTOARIA — Você pretende expandir o projeto a outras cidades?
RF — O projeto no momento está funcionando apenas em São Paulo. Mas com certeza a intenção é expandir pra todos os cantos que eu tiver acesso. Enquanto houver genocídio, abuso de poder e autoridade, difamação do caráter da periferia, preconceito e incentivo da violência, Nós estaremos lá, lutando e defendendo as vítimas do sistema.

Para entrar em contato com o tatuador, você pode acessar o Facebook ou o Instagram dele. E você, conhece algum outro projeto envolvendo tattoos? Conte para a gente.

Paula Neiva
Escrito por Paula Neiva

Trocou a vida de publicitária em São Paulo pela de estudante de artes em Buenos Aires. Tem um Tyler Durden tatuado no braço mas não pode falar pra ninguém, porque a 1a regra é nunca falar sobre o Clube da Luta.